
Escala de Braden: guia completo para enfermeiros na prevenção de úlceras por pressão
As úlceras por pressão continuam a ser um dos indicadores mais sensíveis da qualidade dos cuidados de enfermagem. Para quem está a iniciar a prática clínica, dominar a Escala de Braden e saber como integrá‑la no dia a dia pode fazer a diferença entre prevenir uma lesão grave, ou tratá‑la tardiamente.
Neste artigo vais encontrar:
- O que é a Escala de Braden e porque é tão valorizada em Portugal e no mundo
- Como aplicar cada subescala, passo a passo, com exemplos clínicos
- Em que momentos deves reavaliar o risco, de acordo com as orientações da DGS
- Que intervenções de enfermagem estão associadas a cada nível de risco
- Como articular tudo isto com o Plano Nacional para a Segurança dos Doentes e o Plano de Ação Mundial para a Segurança do Doente 2021‑2030
Escala de Braden: o que é e porque é essencial na prática de enfermagem?
A Escala de Braden é um instrumento de avaliação clínica que estima o risco de desenvolvimento de úlceras por pressão (também chamadas lesões por pressão).
Foi desenvolvida por Barbara Braden e Nancy Bergstrom e é atualmente uma das escalas mais usadas internacionalmente pela sua:
- Fiabilidade (boa sensibilidade e especificidade em múltiplos estudos)
- Simplicidade (rápida de aplicar à cabeceira do doente)
- Aplicabilidade em vários contextos: internamento, cuidados continuados, domicílio e pediatria (versão Braden Q).
Em Portugal, a Direção‑Geral da Saúde (DGS) recomenda a sua utilização sistemática na orientação nº 017/2011, tornando‑a praticamente obrigatória para avaliação de risco.
Mais do que um registo em papel ou no SClínico, a Escala de Braden é uma ferramenta de decisão clínica: o resultado deve desencadear imediatamente medidas de prevenção adequadas ao grau de risco identificado.
Avaliação de risco de úlcera por pressão: quando deve ser feita?
Segundo a DGS e a Entidade Reguladora da Saúde (ERS), a avaliação de risco de úlcera por pressão deve ser realizada:
- Nas primeiras 6 horas após a admissão de qualquer doente, em todos os contextos de cuidados, independentemente do diagnóstico.
- Sempre que há alteração significativa do estado clínico, por exemplo:
- Agudização da doença
- Diminuição da mobilidade
- Alterações do estado de consciência
- Mudanças na terapêutica (sedação, vasopressores, etc.)
- Com periodicidade definida pelo contexto de cuidados, de acordo com recomendações baseadas na Escala de Braden/Braden Q:
| Contexto de cuidados | Periodicidade recomendada de reavaliação |
|---|---|
| Internamentos hospitalares | Cada 48 horas |
| Serviços de urgência e unidades de cuidados intensivos | Cada 24 horas |
| Unidades de cuidados continuados e paliativos | Cada 48 horas |
| Cuidados domiciliários | Semanalmente |
| Doentes que não permanecem mais de 48 h no serviço | Apenas se existir intercorrência |
Escala de Braden: componentes e pontuação
A Escala de Braden é constituída por seis subescalas, cada uma pontuada de 1 (pior situação) a 4 (melhor situação), exceto fricção/deslizamento, que varia de 1 a 3.
As subescalas são:
- Perceção sensorial – capacidade de reagir de forma significativa ao desconforto
- Humidade – nível de exposição da pele à humidade
- Atividade – nível de atividade física
- Mobilidade – capacidade de alterar e controlar a posição do corpo
- Nutrição – padrão de ingestão alimentar habitual
- Fricção e forças de deslizamento
A pontuação total varia de 6 a 23 pontos. Em adultos, são habitualmente usados estes cortes (podem variar ligeiramente por instituição):
- ≤ 9: risco muito elevado
- 10–12: risco elevado
- 13–14: risco moderado
- 15–18: risco baixo
- > 18: sem risco significativo
(Aqui faz sentido um backlink interno para o curso MedIQ Skills “Princípios das Úlceras por Pressão” com texto âncora “curso online sobre Escala de Braden e úlceras por pressão”.)
Como aplicar cada subescala da Escala de Braden na prática clínica
1. Perceção sensorial
Avalia se o doente consegue detetar e reagir ao desconforto relacionado com pressão.
- Pontuações baixas (1–2): doentes com coma, sedação profunda, défices neurológicos, neuropatia periférica, demência avançada.
- O que observar:
- Resposta verbal ou motora ao reposicionamento
- Reação facial à dor ou desconforto
- Capacidade de pedir ajuda quando sente mal‑estar.
2. Humidade
Refere‑se à exposição da pele a suor, incontinência urinária ou fecal, feridas ou exsudados.
- Risco aumentado quando a pele está frequentemente húmida ou saturada.
- O que observar:
- Lençóis húmidos
- Incontinência não controlada
- Sudorese profusa (febre, sépsis, síndrome de abstinência).
3. Atividade
Está relacionada com o nível de mobilidade global: se o doente é acamado, cadeira, caminha ocasionalmente ou de forma independente.
- Acamado ou restrito à cadeira: risco significativamente maior de úlcera por pressão sobre zonas ósseas (sacro, calcâneos, trocânteres).
- Importante distinguir entre andar “até à casa de banho” ou deambulação autónoma prolongada.
4. Mobilidade
Diferente da atividade: aqui avalia‑se a capacidade de mudar de posição na cama ou na cadeira.
- Doentes com mobilidade muito limitada (ex.: hemiparesia, tetraplegia, pós‑cirurgia maior) têm maior risco de pressão prolongada.
- Observar se o doente:
- Consegue virar‑se sozinho
- Mantém posições por muito tempo
- Necessita de ajuda total para reposicionamento.
5. Nutrição
Avalia o padrão de ingestão alimentar e o estado nutricional.
- Sinais de risco:
- Ingesta insuficiente (< metade das refeições)
- Perda ponderal recente
- Albumina sérica baixa, défices vitamínicos (quando disponíveis)
- Disfagia, anorexia, náuseas ou vómitos persistentes.
- A colaboração com nutricionista é fundamental nesta dimensão.
6. Fricção e forças de deslizamento
Relaciona‑se com manobras incorretas de mobilização e dificuldade em manter posição estável.
- Situações de risco:
- Doente desliza frequentemente na cama ou cadeira
- Elevação do tronco > 30° sem apoiar calcâneos
- Transferências sem ajuda de dispositivos (lençol de transferência, pranchas).
- Envolve diretamente a técnica de enfermagem e da equipa multidisciplinar.
Interpretação da Escala de Braden e níveis de risco
Risco baixo (15–18 pontos): foco na prevenção básica
Quando o doente tem risco baixo, o objetivo é manter a estabilidade e evitar agravamento. As intervenções incluem:
- Avaliação sistemática da pele nas zonas de pressão (sacro, calcâneos, occipital, trocânteres, maléolos)
- Higiene e hidratação cutânea, evitando produtos agressivos e secura excessiva
- Controlo rigoroso da humidade (incontinência, sudorese, feridas)
- Acompanhamento nutricional básico, garantindo ingestão adequada de proteínas e hidratos de carbono
- Vigilância da evolução clínica e reavaliação do score sempre que necessário.
Risco moderado a elevado (10–14 pontos): prevenção ativa
À medida que o score diminui, a prevenção torna‑se mais intensiva:
- Mantém‑se todas as medidas de risco baixo
- Reposicionamento programado do doente, tipicamente a cada 2 horas (ajustar conforme tolerância e estado hemodinâmico)
- Uso de superfícies de redistribuição de pressão:
- Colchões de ar alternado
- Colchões de espuma de alta densidade
- Proteção de proeminências ósseas com pensos de espuma ou almofadas específicas
- Elevação dos calcâneos com dispositivos próprios, evitando contacto direto com o colchão
- Minimização de fricção e deslizamento com técnicas corretas de mobilização e lençóis de transferência.
Risco muito elevado (≤ 9 pontos): prevenção crítica
Nos níveis mais altos de risco, a probabilidade de desenvolver uma úlcera por pressão é muito significativa.
- Mantêm‑se todas as medidas anteriores, mas com:
- Vigilância contínua da pele (em cada turno ou mais)
- Documentação rigorosa de qualquer alteração, com fotografia quando indicado pela política institucional
- Discussão em equipa multidisciplinar (enfermagem, medicina, nutrição, fisioterapia)
- Consideração de dispositivos de alívio avançados (colchões dinâmicos de alta tecnologia, talas, botas de proteção).
É aqui que a tua intervenção como enfermeiro tem impacto direto no desfecho clínico e na segurança do doente. Estudos estimam que cerca de 95% das úlceras por pressão são evitáveis com identificação precoce e implementação de medidas preventivas adequadas (DGS, orientação nº 017/2011).
Braden Q: avaliação de risco em idade pediátrica
Em contexto pediátrico, utiliza‑se frequentemente a Escala de Braden Q, uma adaptação da escala original para crianças e adolescentes.
- Inclui fatores específicos como perfusão tecidular e dispositivos médicos
- É recomendada em unidades de cuidados intensivos pediátricos e neonatais.
Escala de Braden e segurança do doente: ligação ao Plano Nacional e ao PAMSD 2021‑2030
A Organização Mundial de Saúde, através do Plano de Ação Mundial para a Segurança do Doente 2021‑2030, tem como visão um mundo onde “ninguém sofra danos nos cuidados de saúde”.
Em Portugal, o Plano Nacional para a Segurança dos Doentes 2021‑2026 assume as úlceras por pressão como importante indicador de qualidade dos cuidados e propõe como pilares:
- Promoção de cultura de segurança
- Formação contínua dos profissionais
- Monitorização e notificação de eventos adversos, num ambiente não punitivo
- Desenvolvimento de sistemas de aprendizagem organizacional.
Dentro desta perspetiva, a avaliação sistemática com a Escala de Braden:
- Ajuda a identificar doentes em risco muito antes de surgirem lesões visíveis
- Permite planear recursos (superfícies de apoio, material de penso, tempo de enfermagem)
- Gera dados objetivos que podem ser monitorizados em auditorias internas, projetos de melhoria da qualidade e relatórios para a gestão.
Boas práticas baseadas na evidência para reduzir úlceras por pressão
A literatura científica mais recente destaca várias estratégias comprovadas na redução da incidência de lesões por pressão:
- Programas formais de prevenção, com formação periódica de enfermagem, reduzem significativamente a incidência hospitalar. [Inserir aqui backlink externo para uma revisão sistemática atual sobre prevenção de pressure injuries em bases como Cochrane ou PubMed.]
- O uso de colchões de alta especificação de espuma e superfícies dinâmicas é eficaz em doentes de alto risco em unidades de agudos e continuados.
- Pensos de espuma de silicone em zonas de maior pressão (sacro, calcâneos) mostraram reduzir a incidência de úlceras em doentes de risco elevado, quando combinados com reposicionamento adequado.
- A otimização do estado nutricional (ingestão proteica adequada, suplementação quando indicada) é fundamental para a integridade cutânea e cicatrização.
- Protocolos de mobilização precoce em unidades de cuidados intensivos diminuem tempo de ventilação mecânica, complicações e risco de lesão por pressão.
Como integrar a Escala de Braden no teu dia a dia de enfermeiro
Para que a Escala de Braden não seja “apenas mais um campo para preencher”, algumas estratégias práticas:
- Avalia na admissão com foco clínico, não apenas para cumprir a rotina. Observa o doente, o ambiente, a roupa de cama, a forma como se mobiliza, como se alimenta.
- Reavalia nos momentos‑chave: pós‑cirurgia, transferência de serviço, início de sedação, agravamento clínico.
- Transforma o score em plano de cuidados:
- Risco baixo → plano de prevenção básica
- Risco moderado/elevado → plano de prevenção ativa com reposicionamento e superfícies de suporte
- Risco muito elevado → plano intensivo com vigilância contínua e registo fotográfico.
- Regista intervenções e evolução: documentação clara ajuda na continuidade de cuidados e na análise de resultados.
- Envolve família e cuidadores, especialmente em contexto domiciliário ou lares, ensinando sinais de alerta e técnicas de posicionamento.
Formação contínua: onde aprender mais sobre Escala de Braden e úlceras por pressão
A prevenção de lesões por pressão exige atualização contínua. A evidência evolui, surgem novos materiais e dispositivos, e as políticas institucionais são ajustadas.
Cursos focados em:
- Avaliação de risco com Escala de Braden/Braden Q
- Intervenções de prevenção baseadas na evidência
- Tratamento de úlceras por pressão em diferentes estádios
- Documentação e indicadores de qualidade
São particularmente relevantes para enfermeiros em início de carreira ou que assumem funções de referência em segurança do doente.
Se queres aprofundar estes conhecimentos e desenvolver competências aplicáveis desde o primeiro dia de prática clínica, conhece o curso 100% online sobre prevenção e tratamento de úlceras por pressão para enfermeiros da MedIQ Skills.
→ Princípios das Úlceras por Pressão
Escala de Braden como aliada na segurança do doente
- As úlceras por pressão são, em grande parte, evitáveis.
- A Escala de Braden é uma ferramenta simples, validada e recomendada pela DGS para identificar precocemente os doentes em risco.
- A reavaliação periódica e a transformação do score em plano de cuidados concreto são fundamentais para cumprir os objetivos do Plano Nacional para a Segurança dos Doentes e do PAMSD 2021‑2030.
- Para o enfermeiro em início de carreira, dominar esta escala significa ganhar autonomia clínica, melhorar resultados e contribuir ativamente para uma cultura de segurança não punitiva e transparente.


